segunda-feira, 29 de outubro de 2012

E aquele que...



O rei que venceu seu pior inimigo
Com lança certeira varando um Dragão,
Certo que iria sentir-se falido
Vindo à saber que toquei tua mão.

O tolo Demônio em seu trono maldito,
Tendo pra si toda puta do espaço;
Bem choraria num lôbrego exílio
Tal que me visse ganhar teu abraço.

E o mais Alto Arcanjo dos lindos Elísios,
Crendo saber ser completo e feliz:
Viria a gritar de ciume incontido,
Querendo o sorriso que deu só pra mim.

domingo, 28 de outubro de 2012

Palavra



Tua palavra pode, acredite!
Amputar meus pés, me lançar ao chão;
Como pode, é certo: Alavancar minha fé,
Dar-me vinho e pão. Tua palavra pode,
e deve: Ser cajado amigo
ou luz que nos caminhos, deixaram-me em pé.

Encontro



Quando for sentir saudades, tenha a certeza inabalável de que me verá de novo. Farei o o mesmo; e assim, aqueles caras invisíveis vão mexer os palitos, e o reencontro estará marcado. Mas aquele beijo, porém, é decisão nossa. O lugar, nos cabe imaginar – E que seja bem verde! (um parque, eu indico). Nesse dia, que seja noite, uma noite fria que obrigue abraços, xícaras de chá, e cafunés de monte! Que nos falemos pouco, e troquemos cartas versejadas de olhar. Que façamos perguntas que carinhos possam responder. Que não levemos dores, mas se nos seguirem: Sorríamos! Pra que todas ceguem e afundem no lago à nossa frente. Não esqueçamos, por fim, eu peço! De esquecer nossas memórias; para que lá, esqueçamos o tempo. Assim, nosso beijo será louco, e não terá medo de continuar sem fim.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Lareira



Teu hálito me toca, e me adormece;
Viajo em tua boca e assim me perco:
Vagueio por caminhos tão estreitos,
Fazendo-me colar em quem me segue.

Passo em sincronia enquanto cheiro
A nuca mais formosa que entorpece,
E a fria sobriedade bem aquece
Nas ávidas mordidas pela orelha.


Na noite generosa a estrela segue
Fitando lá de cima pelas brechas,
Os corpos semelhantes à lareira;

A chama e o galho seco se completam,
Se atracam, se destroem, trocam afeto:
Por fim que o sono é balde d'água que entristece.

Beijo Guardado



O meu beijo vou guardar à muitas chaves,
Tantas delas pra ninguém ousar abrir;
E roubar o que de mim é tão sagrado
Desses lábios prometidos ao porvir

da chegada de quem amo e quem espero
De olho aberto à várias vidas sem dormir;
Tem me dito o Deus que adoro, enquanto rezo:
“Não se perca ou se permita desistir!

Vá banhando tua angústia nos teus versos,
Pois o tempo cabe aos anjos decidir;
Fique certo que a nevasca é passageira,
E a Lua Cheia que deseja está de vir.

Tua carne que o espírito incendeia,
Educai à luz dos versos que lhe fiz;
Pois a boca que lhe devo está na Terra
Procurando o lábio amado por aí.”

Distância



Quantas estradas, terras, carros e Caminhões
que nos separam a carne,
Enquanto nossas almas sintonizam, com precisa exatidão:
No mesmo espaço, tempo, na mesma frequência
Daqueles que amam, e se amarguram
Com a Distância.

Pois quando quadros do teu sorriso emergem
Dos preciosos relicários da memória,
Surpreendo-me sorrindo, espelhando o teu sorriso,
E sorrimos nós dois – eu cá, tu lá,
e um mundo entre nós, em nós, para nós e,
portanto, nosso, e de ninguém mais.

É que Deus mal sabe, querida,
Que lados iguais não passam de um lado somente,
Duplicado em ironias de vidro, de choro,
de chuva, nuvem, névoa, e de granito;
Nas gracinhas de um ponteiro,
nas piadas de um paquímetro.

Contrato



É momento de educar a criatura,
Letrá-la nos versos que libertam
Dos prazeres que se apegam à todo custo
Em paixões que não se olham e nem se afetam.

Ser digno de amores mais que eternos:
Quero ser e dar um fim ao desalento
Que me honra na desonra de um poeta,
Que me veste de calúnia todo o tempo.

Quando a fera de selvagem for um nobre
sentimento que ao amar é o mais seleto,
Vou encher de orgulho o peito quase esnobe
Por do amor ser não escravo, mas seu servo.

Ter de volta o amor que dou, assim espero,
Como os versos prometeram no contrato;
(Mas não li os seus estrofes mais discretos
Pois por ela posso ser ignorado.)

Lagoa



Como eu queria mergulhar em uma lagoa límpida:
Deixar meu corpo vazio, pesado;
Eu, lá embaixo, e o ar lá em cima;
Morrer? Se for preciso,
Respirar se necessário;
Tanto faz...
Contanto que eu mergulhe em uma lagoa límpida.

Máquina



Na porta bata quando for entrar no núcleo
Das emoções tempestuosas de um poeta,
E com cuidado não se embole em meus circuitos,
Nem meta a fuça nos botões que desconhece.

Se numa tela ver passar a tua imagem,
Só desligue o monitor e não se altere;
Nem invente de alterar minha voltagem
Pois qualquer curto de paixão me deixa inerte.

E por favor não me confisque as engrenagens
Que furtei dos corações que já te amaram,
E que tratou de sabotar sem piedade.

Vá embora simplesmente, não me apague;
E se não ama minha velha e triste máquina:
Deixe apenas que eu desligue de saudade.

Eu Condeno



Achava que tudo era calmo, que tudo era belo e simples demais,
Achava que enquanto te amasse, amado seria, repleto de amor;
Agora que resta o legado do peito entreaberto por lâmina atroz,
Sinto o quão fui covarde, o quão foi sombria e o quanto que dói.

Ouso gritar ao teu lado, não quero alforria, não quero pudor!
Quero que assuma o silêncio no qual me dizia conter tua voz;
Por nunca dar-me um semblante, um mínimo encanto cheio de paz,
Condeno-me à amar em mil anos e ao fim de mil anos te amar muito mais.

Abraço



Se era homem, nos teus braços fui criança;
Quantas dores foi capaz de acalentar!
Com teu jogo de sorrir, humilde e franca,
Na esperança que senti ao lhe abraçar.

Quente e firme, requintada em temperança,
Tudo em mim quis sair para voar!
Ao teu lado pelos astros de Aruanda,
Pelos olhos cores d'água de Iemanjá.

Se na vida passa o tempo e a alma cansa
Com os labores que nos fazem suspirar
e chorar assim que cegam as esperanças:

Foi meu peito só entrar em consonância
Com as batidas do teu seio à me acalmar,
Que acordei pra Vida Eterna de quem ama.

Luz!



Luz, jorra sobre a fria cordilheira
de montanhas nebulosas e encantadas;
Dos defuntos que subiam, leve as almas,
com carinho sacrossanto que asserene

todo aquele que no risco da jornada
teve a vida consumida de repente,
e de súbito se viu tão fatalmente,
de um carnal sono profundo, restaurado.

Mas percebe então que a falha consciência
pelos túneis do além-vida transpassara,
Pois manteve suas ideias transviadas
nos abismos de amargura e repetência.

Tende agora, na tribuna à ser julgado
pelo réu da amarga culpa de si mesmo,
E essa angústia que lhe é própria dita o tempo
em que dura humana pena que se é paga.

Mas a dor não é o mau que tanto pensam:
Pedregulho que à seguir se faz gramado,
Ou areia em que descansam pés ralados
por trilhar esse caminho longo e tenso.

E luz alva vem raiar de inesperado
Sob aquele que de si não tem ciência;
E diz: “Filho! Dou-te a vida novamente, mas,
lá, queira orar e vigiar-vos!”.

De Ogum



Quando deitei-me de frente ao Gongá,
Vi que uma lança vistosa e cumprida
Fora fincada no chão, à brilhar,
Firme e na força da Virgem Maria.

Era de um moço bem alvo e sagaz:
Bravo soldado das cavalarias,
Dessas que cortam zonais umbralinas
Baixo a bandeira de Cristo na Paz.

“Toma essa lança, Guerreiro da Vida,
E usa na luta que houver de lutar;
Caso te aflija uma espada sombria,
Ergue tua lança que Ogum vai baixar.

Vista do branco e coloca tua guia:
Ela é teu anjo que vem lhe abraçar;
Casa de Umbanda é porão socorrista
Quando na vida se deixa varar.”

De Volta



Crendo que a vida sem volta findava
Com os múltiplos órgãos que aos homens compõem,
Soltei toda prova que os céus me mandavam,
Tais para agarrar-me e elevar-me depois.

Sendo que assim que do corpo eu soltara,
Em treva medonha paguei toda dor
que às boas figuras causei com palavra
de baixa candura e desprezo à rigor.

E mesmo sem crer no que muito pregavam
Aqueles de branco falando de Amor,
Por guias de luz então fui resgatado e
guiado a morada de Nosso Senhor.

Mas tendo o que deve pagar o comprado:
O ofício da carne em meu carma voltou,
E hoje me encontro versando o trabalho
que a vida concerne no curso em que vou.

Banhe-se



Para, e sente
A gota de orvalho que embala teu corpo:
Se é fria, se é quente,
Que baila e se estende
do fundo do olhar às planícies do dorso.

Cala-te e pense:
A alma ranzinza sorrindo nos ombros
de paz e silêncio,
No abraço envolvente
Que à leve dormente em elísios de sonho.

Morde e responde:
Se é doce ou salgado o meu verso tristonho;
Pequeno ou gigante,
Covarde e gritante!
Se falta o teu beijo nas rimas que arranjo.

Explode e não teme;
Na cena da vida se entregue em seu Todo,
Agora é teu Sempre,
Se atente ao que é Hoje,
E o resto é conversa dispersa no jogo.

Depois, para,
Para e sente
o banho de Arte que enxágua teu corpo.

Boiadeiro, Camarada


Tenho um camarada Boiadeiro,
E sua boiada corta o rio bravo
feito um gume vivo e esbravejante!
É com firmeza e com vontade
que ele ensina a levar meus bois
pela espuma corrente das águas:
Feras! Que brotam nas sombras da Tempestade
E dormem no canto das madrugadas;
E esse rapaz, amigo meu,
Fala que chega com os bois na Morada
Aquele que enfrenta com fé vezes garra
O escuro de mares, do abismo e do chão.

Consolo


Tem quem evite com sanha ou sofisma
um ferrenho motivo que o faça sorrir;
Nos rumos da vida desníveis não findam
enquanto um semblante não presta à servir

sorriso tão grande, tal astro que brilha
por sobre as encruzas que estão por aí;
Nas sombras sinistras que envolvem as sinas
dos homens errantes, tu pode surgir

com chama ofuscante, clareando as frias
jornadas sombrias de quem ao cair
rolou nos barrancos da densa malícia;

E agora, ferido, não sabe subir,
Podendo quem ama, com amor intervir,
No humilde sorriso que afague as feridas.

No Navio


Quantas vidas penetram no teu corpo jovem:
Falam com a boca do teu beijo,
Tocam-me com as mãos do teu abraço,
do teu aperto,
do teu afago.

Quantas almas ígneas do espaço
Envolvem-na no fogo excelso,
Flutuam teu corpo sobre os mares
dos navegantes cósmicos e etéreos!

Vejo -
Desta margem fosca e retardada,
Meio terra suja em pouco d'agua:
O teu barco nobre que se afasta
do terreno escuro qual me apaga.

E grito!
Da maré sutil que nos separa,
O Amor que sinto e que me empolga
À travar as ondas que retalha.

E espera! No Navio Divino do teu Carma,
Minha canoa trêmula e furada
que entrevê o Sol para onde voltas.

O Arcanjo



Deus, o Alto e Justo, fez o barro e dele o homem;
Vendo-lhe depois extasiar-se em vaidade:
Pouco demorou, morreu a fé; matou-a outra:
A lâmina arrogante que assombrou a Santidade.

Torpe sofrimento se alastrou ao ir das noites,
Gritos e lamúrias fecundaram a humanidade;
Vida sobre vida baixo à morte e rente a fome:
Esta e mais quimeras como provas seculares.

Logo, lá no céu, de toda nuvem e todo assombro,
Raios faiscantes derramaram em quantidade!
Feixes de Luz branca que levaram ao mundo todo
Anjos amorosos à serviço do Sagrado.

Tal que abriu nas feras lindas lótus de consolo
Às dores que viriam e à tratar das que passaram;
Deitava sobre a Terra de labor e seio morto
O Arcanjo do Progresso que ensinou-nos a Amizade.

Cansei


Cansei de amar somente quem amar não queira,
Amar de alma inteira quem não tem amor;
E quem quiser amar a mim que ame e venha
Pois tenho amor de sobra e a quem quiser eu dou.


O triste da paixão é não prover ciência
Da causa que edifica e aquela que traz dor;
Quem ama raciocina semelhante à presa
Que foge compulsiva à besta que alvejou.

Não sei se do organismo humano é só fraqueza,
Talvez seja doença desse tempo atroz,
Ou mesmo voz do além que assim nos aliena;

Mas temo que quem tema teima por rancor,
Orgulho e vaidade frente ao que asserena,
Também que por vontade a evolução parou. 

Um Recorte no Céu


Perdeu-se ao vento a graça
de à ter ao lado;
Não porque sou rude,
nem por ser covarde:
Mas tem cor as almas por detrás da carne;

E vi, além do teu semblante aguado:
Textura fosca, enxuta e acinzentada,
Complacente em umedecer-se em fardos.

Duro,
Foi saber o tanto que esperava
Vir de mim pintura rebuscada
com os decoros todos que não tinha.

E ao saber o quanto que sou nada,
Sem portar os dotes que ansiava
pra suprir as dores que sentia:

Contra mim se armou nuvem de adagas
De um silêncio abrupto atiradas,
Recortando o céu que nos unia.

Mas se um dia eu vos jurei abraços
e faltei no ofício da palavra,
é por ser tua dor também a minha.


Dragão do Oriente


Tão sedosa era, a pele clara do Oriente,
Que toda rima engasgava;
Sonhei que a noite mergulhava à brumas:
Só não sei se em plumas
ou no corpo dela.

Mas menti dizendo no versar que tinha
Com palavras meigas de encurtar o tempo,
quanto que imperei sobre os dragões feudais!
Tais aqueles dela atrás do olhar sereno,
vindos contra o peito
sem queimar demais.

Foi guardando o fogo e despistando a Morte;
Me escondeu num templo em que esta não cabia;
Frente o altar humilde vi que ela sorria
por me ter ao lado
partilhando a foice.

Eu julgava amargo e ela, quase doce;
Não mordia a pele e nem roubava a boca;
Um demônio então à possuiu de noite e
do escuro soube
não saber é nada!

Pois se o Sol se pôr espavorido, saiba,
que atrás do olhar pequeno e brande, mora
Legião de feras do luar e carne. 


Senhora do Mar



Vi uma onda cheirosa e gingada
Lavar a coroa de pérfidos reis;
Água tão pura que ao toque nas almas,
Limpou-as por fora e depois os haréns.

Diz quem na onda, com fé mergulhara
Sentiu-se levado às fronteiras do Além:
Além das areias e espumas tenazes
e além das tormentas envoltas de breu.

Vieram falanges de brilho inefável,
E alvos Netunos disseram, porém,
Prestarem serviço à morena sentada
No ponto firmado nas algas de aquém.

E tal que um tremor oscilou as jangadas,
Chorar fez o homem e o peixe também;
Então perguntei: “Mas quem é que chegava?”
“Senhora Yemanjá e, de novo ela vem!”

Quimera humana



Diz que ama com todo Amor que cabe na palavra,
Depois desata, como é da fera que conquista e engana:
Quimera humana, que às vezes liga-se à Unção Sagrada,
E enfim deságua, por vales mórbidos de ignorância.

Boa Nova



Eu fui contando as horas do raiar do dia,
O dia foi caindo ao levantar das horas;
Assim que o céu tocou a terra leiga e linda,
As horas ascenderam ao Deus da Boa Nova. 

Nuvem




Veja essa nuvem Cigana e serena,
Firme na sina cedida por Deus;
Vê como é rude a jornada que enfrenta:
Vez nevoenta, sozinha e no breu.

Vezes lhe assombram maléficas bestas,
Altos estrondos gargalham no Céu!
Quantos relâmpagos bravos lampejam,
Tais que lhe partem da fé que mantém.

Se é tão tranquila, pois sabe a grandeza
das Forças Divinas que agem no Além;
Que traçam caminhos de dores tremendas,
E alçam planícies de tremendos bens.

Mira nas nuvens, se quer paciência:
Vê como é sábio o que o Anjo nos deu;
Dorme esse orgulho de vã sapiência
E ouve o que os céus tem razões pra dizer.