domingo, 4 de novembro de 2012

Olhar



Essa história se trata de olhares. Se procura por beijos, não os vi, nem os conheci. Agora de olhares eu entendo bem.
Antes tudo, o que seria um olhar?
Advirto: Dicionários mentem! Perguntem aos próprios olhos, eu peço.
E o que disseram?

Os meus não são de conversa, mas me explicaram que um olhar é qualquer mistério, ou certeza absoluta que venha à surgir no espaço entre duas almas que se afetam. Sendo assim, em todos os cantos germinam olhares proféticos. Abaixo dos cílios de todos nós, residem joias capazes de eclodir a causa de todos os efeitos. Mas é preciso porém, considerar que nem tudo são olhares; se os reconhecem na ausência de todas as palavras. Sua maior qualidade é seu silêncio, e em sua dádiva habita o pior de seus castigos. Certo?
Mas não tema um olhar! É como um filho que pede por todo o amor de seus pais, pois tende à morrer pouco tempo após seu parto. Mas há quem diga, inclusive, que se um olhar for bem tratado, crescerá e tornara-se um beijo, às vezes abraço, as vezes sorriso, ou mesmo uma lagrima.
Cultivemos olhares para que plantemos histórias! Aquela que devo, deixarei para que plantem. Procure por alguém, de preferência alguém que ame, e tenha com ela um olhar. Vicie, e nunca mais pare.

Sonho Bom



Subiu ao céus uma noite confusa
De estrelas gigantes que olhavam pra mim:
Piscavam, piscavam, perante três luas,
Três berços minguantes que fazem dormir.

Cortando horizontes, cruzavam arco-íris
Com cores de encantos tais quais nunca vi
Nos contos de fada, de prata, de virgens,
No livro ou nas bocas dos sábios que ouvi.

Cupidos sopranos cantavam felizes
Cantigas e trovas escritas no fim
Das tardes chuvosas de ventos perdidos
No uivo dos lobos que migram em Abril.

Contemplo esta noite do alto da serra
Vestida das rosas de um vasto jardim;
Vem vindo uma moça no passo que encerra
A dor de um poeta que espera à sorrir.

A moça bonita que às flores alegra,
Caminha tranquila, na serra à subir;
Me olha, me afeta, no lábio – A mordida,
Mistério e magia no ar à sentir.

Chegando me abraça com imenso carinho:
Me toca na boca com a boca que é dela!
Desnudos ficamos, trajados de afeto (…)
E acordo sem ela, na noite. Sozinho.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Não Sei



Não sei lidar com as palavras que digo,
Não sei se digo o que quero dizer,
Nem sei se quero as palavras que sei.

Eu não acredito nas coisas que falo,
Falando pedaços daquilo que é;
Deixando de ser e dizer o que era.

Meu trono é um verbo mal dito e calado,
Ousado que ousa chamar-me poeta:
Colhendo sentido e fazendo colagem.

Preencho o silêncio de abismo e de falta
Com prece de angústia e com versos eu faço
Escadas que findam no mesmo lugar.

Morri de Coroa


Morri de Coroa,
Morri da fome por tudo que já tinha
E despojava;
Morri de fraqueja trajada de força,
Morri por ser trouxa, e ser realeza;
Morri de humildade por ser orgulhoso,
E levei pelas costas olhando pra cima;
Eu fui o peão abatido no jogo:
Por que matei aos outros, e amei a rainha.

Por isso quem andar pelo centro da cidade
Ver-me-á vasculhando pelos cantos da calçada,
Os pedaços de meu cetro repartido e rechaçado.


O Marujo



A moça me tinha nos olhos profundos,
olhos mais quietos que os olhos do mar;
E as feras marinhas voltavam pro escuro
de frente com as feras sombrias do olhar.

Nas dúbias palavras fui tolo marujo,
Na estranha quietude não quis navegar;
Nas odes do afeto faltou-me a virtude
de tudo que é dito saber demonstrar.

Jogara-me em nau de loucura e sussurro
com quantos feridos quiseram vagar
por vales infames que servem refúgio
às hábeis sereias que querem embalar

piratas perdidos na treva do mundo
por conta de um beijo que não quis se dar;
Melhor são as águas que vibram suas ondas,
que aquelas tristonhas tentando parar.

Sofrido um naufrágio, nadei sem ter rumo
até linda terra e florida encontrar,
Nela um arcanjo cigana me surge
saudando com risos e abraços de paz.

Por sua vontade larguei dos meus gumes,
meus baixos costumes e vícios quaisquer;
Não mais ansiava por mares à fundo,
bastando-me o baile das fáceis marés.

E então ela disse, causando-me um susto,
que antigo naufrágio levou-me da Terra;
Estava em colônia de auxílio aos marujos:
que morto nas águas, fui salvo por ela.